terça-feira, 2 de junho de 2015

EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA Otávio Martins

Pietá, de Michelangelo, 1499


EM BUSCA DA MEMÓRIA PERDIDA

Otávio Martins


Todos olhavam para ele consternados; abraçavam-no sem mesmo dizer qualquer palavra, apenas para confortá-lo e para que se sentisse amparado naquele momento tão grave e delicado da sua existência, já fragilizada pelos anos.

Ele não tinha o olhar triste; perdido, sim, transcendia a figura da mulher que estava sendo velada e que, agora, nos últimos momentos daquele ritual, era chegada a hora de fechar o caixão, o qual, logo a seguir, seria levado para o seu sepultamento.
Apertando-lhe contra si, ao passar o braço direito pelas suas costas, num gesto claro de proteção, o homem, bem mais jovem que ele, tinha o ar abatido e tristonho. Não obstante, esforçava-se para confortá-lo.
Certamente que alguma coisa ia mal com a sua memória, isso ele já havia percebido. Não poderia estar ali, naquela condição, sem mais nem menos. Precisava ir à busca do fio da meada, o qual, possivelmente, o ajudaria a desvendar qual o seu papel naquele triste acontecimento. O féretro, sobre um carrinho, era conduzido, logo à sua frente, por um funcionário do cemitério. O homem que lhe abraçara fortemente lá na capela, antes de fecharem o caixão, permanecia ao seu lado, tendo, agora, os olhos vermelhos, denunciando que havia chorado durante aquele breve intervalo.
Assim, de repente, viu-se, lá num canto das suas lembranças, sentado, vestindo um longo sobretudo azul-marinho, de fino acabamento; um gorro de tecido de lã, cinza, que também servia para cobrir os primeiros sinais da sua calvície. O banco em que estava sentado ficava localizado bem no meio de uma daquelas veredas da praça. Do outro lado, no banco em diagonal ao seu, reconheceu o sujeito que comia um lanche caseiro, rodeado por uma porção de pombos que esperavam as migalhas que por ventura caíssem ou que fossem atiradas. Lembrou, ainda, que o sujeito havia trabalhado, por muito tempo, no estacionamento, ao lado da alfaiataria do seu pai. A alfaiataria tinha uma ótima freguesia, o que exigiu afinada capacitação profissional de seus cinco ou seis funcionários. A mulher que estava ao seu lado, entretanto, não tinha o rosto nítido ao ponto de que ele pudesse identificá-la. Ainda que muito tivesse se esforçado, não teve jeito; não saberia dizer quem era, apesar de estarem ali juntos. O sol amenizava o frio naquele grande cenário de muitas árvores; talvez fosse o fim de um outono qualquer, ou comecinho do inverno.
Ao passar por um enorme jazigo – provavelmente de alguma família muito rica – avistou a estátua, em mármore, fixada sobre o teto, a qual dava à construção um aspecto pomposo, até exagerado, mesmo para a representação à qual se destinava. Mas, a estátua, ainda que fosse uma réplica, não perdia, por isso, a sua importância. Impossível passar por ali sem se dar a devida atenção àquela peça que, agora, o reportava à Renascença Italiana, de Michelangelo, com a sua Pietá. Apesar do grave momento, experimentou uma ponta de satisfação, lembrando, até, que a Pietá fora encomendada por um cardeal francês, para a Capela dos Reis de França, localizada na Basílica de São Pedro, por volta do ano de 1500.
Como poderia ter esquecido?
Os trabalhos em escultura eram a sua vida. Depois que o seu pai morreu, ficou com a imensa casa, uma construção antiga, de um amplo jardim, pelo qual costumava ir espalhando as suas esculturas, lugar onde passava a maior parte do tempo. Logo a seguir, já estava iniciando uma peça de grandes dimensões; lá do alpendre, bem distante, a mesma mulher da praça acenava para ele, em trajes de passeio, parecendo que o avisava estar de saída ou, apenas, se despedindo. Aqueles gestos que pareciam de intimidade ou convivência – sentiu essa sensação – lhe davam mais ânimo e inspiração para cada novo trabalho.
Enquanto se preparava para iniciar o entalhe, o menino corria, junto a um cão labrador, por várias partes do jardim, demonstrando muita segurança, talvez pelo simples fato de sentir a sua proximidade. Ele não poderia “parar” ali, precisava ir em frente às suas redescobertas. Nem tempo para saber o que estaria reservado àquela enorme peça bruta de mármore.
Quando o carro que levava o féretro virou à esquerda, numa daquelas avenidas do interior do cemitério, pressentiu que o local do sepultamento estava próximo. Era preciso ser mais rápido na revisitação às suas lembranças, sob pena de não conseguir identificar-se direito, tampouco a mulher que iria ser sepultada dentro de alguns instantes.
Durante o breve percurso permaneceu calado. O gorro de lã, escuro – do mesmo tipo daquele que estava usando naquela tarde fria lá na praça – servia para protegê-lo do frio e de um vento persistente e um pouco forte naquele triste e cinzento final de tarde, acentuando ainda mais os seus cabelos compridos, totalmente brancos e ralos, os quais denunciavam que teria a idade aí por volta dos oitenta e cinco anos, ou até mais. Em questão de alguns passos, a memória, que se ia restabelecendo, continuava levando-o a reviver outros fatos, passados em diferentes épocas.
A mulher que caminhava de braços dados com o sujeito que tinha o outro braço sobre os seus ombros não tinha um rosto totalmente desconhecido, mas, tampouco, que lhe pudesse parecer familiar. Talvez não fosse de uma estranha, porém, nada que lhe provocasse a sensação ou a impressão de que fosse alguém que gozasse de sua intimidade ou, mesmo, de sua convivência.
Preferia caminhar olhando para frente. Era assim que a sua memória apresentava várias cenas que se iam revelando no decorrer do trajeto pelo qual o corpo da mulher estava sendo levado. Não havia tempo a perder. Era preciso aproveitar ao máximo todas as informações que pudessem ajudá-lo a identificar a morta e, também, o porquê de estar li, naquela condição, dando-lhe a impressão de ser um dos principais atingidos por aquele melancólico acontecimento.
Avistou bem lá na frente, junto à parede da direita, os dois coveiros que, sobre um andaime, faziam os últimos preparativos numa daquelas gavetas, a qual ficava na fileira do meio, não muito alta. Somente naquele local havia algum movimento e a presença daqueles dois trabalhadores; eram sinais de que - quase certeza - ali a mulher seria sepultada. Ficou um pouco aflito ao perceber a distância que, agora, estabelecia, a olhos vistos, o curto prazo que teria para decifrar todo o mistério em que se sentia envolvido.
O funcionário do cemitério que ia conduzindo o carrinho que carregava o esquife procurava ir numa velocidade bem lenta, dando a impressão que assim o fazia, somente para que ele, com seus passos quase arrastados, pudesse acompanhá-lo de perto. Mesmo assim, sabia que travava uma luta desesperada contra o tempo. Por mais que ele tentasse atrasar o ritmo do acompanhamento, o enterro estava em seus últimos momentos; isso era certo. Outro ponto que o dificultava, era a maneira como as suas lembranças se apresentavam. Não surgiam numa ordem cronológica. Por vezes, voltavam a uma época remota para, a seguir, saltarem para um tempo cá na frente. A essas alturas, ainda que algum fato pudesse despertar a sua curiosidade, procurava não se deter nos detalhes; bastava-lhe entender o significado principal de algum acontecimento, e pronto. Talvez num outro momento viesse a ter a oportunidade de relembrá-lo com mais calma, podendo, assim, dedicar-lhe melhor atenção.
Ao chegar a casa com um automóvel que conseguira comprar depois de muito economizar, estavam a lhe esperar, uma mulher e um jovem, debruçados sobre o portão da frente. Época em que o automóvel era uma raridade. Encostou-o em frente a casa, desceu e, logo a seguir, dirigiu-se aos dois; entregou as chaves para o rapaz que, imediatamente, a passos ligeiros, depois de se falarem qualquer coisa, foi em direção ao veículo. A seguir, colocou o braço sobre os ombros da mulher e se dirigiram ao interior da casa. Não deu pra ele saber se haviam entrado para comemorar; a porta foi fechada logo em seguida.
E essa lembrança, agora? Nem mesmo em outros tempos havia recordado daquilo. A mulher aparecia de mãos dadas com ele, naquela mesma praça, trazendo de casa uma sacolinha de tecido, cheia de farelos de pão e sobras de outros alimentos para jogá-los aos pombos, que eram, sempre, em grande quantidade. Percebeu que assim o faziam, seguidamente, como um bom motivo para mais um passeio pela praça.
Outra vez a memória com as suas manobras, brincando com o curso do tempo. A mulher que estava do outro lado do homem que o amparava nos últimos instantes daquele cortejo fúnebre, aparecia bem mais jovem, vestida de noiva, numa festa em sua casa, com muitos convidados, cuja maioria passeava pelo jardim admirando as suas esculturas. Depois, na hora de cortar o bolo, tinha ao seu lado o mesmo homem que ali estava entre os dois. Ele e a mesma mulher daquelas outras aparições - felizes - postados ao lado dos noivos. Aquela mulher – não precisaria mais de outras revelações – era a sua esposa. Aos seus lados estavam o seu filho e a sua nora. Não poderia haver mais dúvida.
Quando, por fim, os coveiros retiraram o caixão de cima do carrinho e o descansaram na extensão do andaime, antes de colocá-lo, cuidadosamente, na gaveta, ele irrompeu num choro baixinho, sem causar qualquer preocupação ou admiração em nenhuma daquelas pessoas, as quais, ele percebera, procuravam ajudá-lo a transpor aquele momento tão difícil e único. Chorou por mais alguns minutos, aliviado por ter conseguido se despedir da sua companheira, de mais de cinquenta anos, com toda a lucidez.

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