terça-feira, 19 de maio de 2015

BR 116, APENAS UMA HISTÓRIA - conto de OTÁVIO MARTINS


    BR 116, APENAS UMA HISTÓRIA - conto de OTÁVIO MARTINS


    "Chegou a pensar numa noite qualquer, se o lugar para onde o velho do saco a levaria seria melhor ou pior do que aquilo ali, quase um fim de mundo, apesar de estar no meio do caminho de um país do tamanho de um continente."

    Naquela madrugada ela chegou ao acostamento da rodovia mais cedo do que de costume. Estava escuro ainda; apenas os faróis dos veículos iluminavam, de passagem.
    O pai de Joana, depois de acomodar os cachos de bananas, ao abrir a barraca, deu conta de que ela não estava ali por perto. A casa ficava a mais ou menos trinta metros para dentro. Um chalé, sem pintura, abrigava toda a família. Joana era a do meio, pouco mais de 18 anos. Seu Chico resolveu dar um pulo até ele ver o que estaria acontecendo.
    Na noite anterior trabalharam até tarde; quando os dois caminhoneiros chegaram para comer alguma coisa já passava das oito horas e ainda beberam mais duas cervejas. Resolveram dormir por ali mesmo, nas cabines de seus caminhões. 
    O dia havia sido longo. Seu Chico costumava fechar a barraca bem mais cedo; à noite nem valia à pena ficar aberto, pelo pouco movimento e, também, aquele lugar não era lá muito seguro. O que se poderia encontrar mais perto dali era o posto BR, onde os motoristas costumavam estacionar e alguns até ficavam para pernoitar. Além do bar e restaurante, que funcionava até a uma ou duas horas da madrugada, tinha também um hotelzinho, que ficava num espaço junto ao posto.
    Quando, Jorge, o irmão mais velho de Joana, ainda morava com eles, era quem colhia os cachos de bananas de manhãzinha e, depois, dividia-os em pencas, que seriam dependuradas nos arames esticados acima do balcão. Um bom lugar para que ficassem à mostra e fácil de pegá-los se, eventualmente, algum freguês parasse para comprá-los.
    Há mais de três anos que Jorge resolvera tentar a vida na cidade grande. Apesar de todo esse tempo, até aquele momento havia mandado poucas notícias. Tocou para Joana ficar, desde cedo, na barraca, no período da manhã. Quando o seu pai voltava com os cachos de bananas, ela ia lá para o chalé, onde preparava os pastéis, café nas garrafas térmicas, sanduíches e outros lanches. Precisava da ajuda do caçula, que já fazia muito. Era, principalmente, nesses momentos que ela sentia mais a falta da sua mãe.

    Para que não soasse como uma cobrança, Joana, quando se lamentava, sempre repetia: "Que Deus a tenha!". O máximo de energia que a mãe de Joana usava, era quando tentava adverti-la " mas isso já não metia mais medo - olha que o velho do saco vai levar você, heim! Ela era ainda muito pequena, porém, já havia passado por muita coisa. Chegou a pensar numa noite qualquer, se o lugar para onde o velho do saco a levaria seria melhor ou pior do que aquilo ali, quase um fim de mundo, apesar de estar no meio do caminho de um país do tamanho de um continente.
    Da adolescência até a idade adulta, fora submetida a certas situações indesejáveis e constrangedoras, tanto para uma adolescente, quanto para uma mulher. Seu Chico não tinha lá um senso formado para certos valores. Desde que se instalara ali naquele pedaço de caminho, a sobrevivência impunha-se de forma tão urgente que, além do ganho do dia-a-dia, quase não tinha tempo em atinar para outras coisas que poderiam ser, até, importantes tanto para ele quanto para Jorge, Joana e Leonardo.
    A escolinha, que ficava bem próxima ao posto, sempre funcionou mal e parcamente. Parte das crianças que iam ficando ali pelo lugar conseguiam, no máximo, freqüentá-la por quatro ou cinco anos. Problemas com o transporte, segurança, instalações, falta de professores. No inverno era o caos. Leonardo ainda persistia e já estava na quinta série. Apesar do pouco tempo que tinha pela manhã, conseguia estudar um pouco e fazer as lições de casa. Precisava se virar sozinho, pois era o mais adiantado da casa. Joana fazia o máximo para poupá-lo nos afazeres com o abastecimento da barraca. 
    No tempo em que Jorge estava com eles as coisas eram mais fáceis. Joana, pela manhã, ficava a maior parte do tempo, quase que todo, somente com a incumbência do preparo dos lanches. Sem o Jorge, era preciso se desdobrar. Tinha que cuidar da casa, da roupa " principalmente a de Leonardo, para que fosse sempre direitinho para a escola " e outras coisas; ainda, ajudar o seu Chico na abertura da barraca. Era, no sentido da responsabilidade, a dona da casa.
    Santiago, que tanta coisa havia prometido à Joana, já há um bom tempo andava desaparecido. Trabalhava numa empresa que transportava carros para o interior, naqueles imensos caminhões-cegonha. Não tinha endereço certo, apenas o celular que, vez por outra, ligava para dar alguma notícia. Joana, apesar da situação, nem cogitava de cobrar nada dele. Santiago poderia ser " ela sabia disso " uma grande mentira ou, até, estar desempregado. Como saber?
    Ouvia mil histórias sobre outros lugares. Na tevê, ficava sempre de olho quando o assunto era oportunidades de trabalho. Claro, no ramo da alimentação, ou mesmo em serviços gerais, seria o mais afeito às suas práticas. Era apenas mais um sonho de Joana que a ajudava levar em frente aquela realidade que já não tinha mais a menor graça. 
    Quando o pai de Joana voltou do chalé, tinha um ar abatido, apenas desesperança e tristeza no olhar. Nem acordou Leonardo, precisava de um tempo para entender melhor a situação. Não era homem de se desesperar, tampouco maldizer a vida. Sabia que ali não era fácil de suportar. Apenas o que sentia naquele momento, era não saber qual direção teria tomado Joana. E, também, por não ter tido a oportunidade de desejar-lhe boa sorte.

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