quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A PRISIONEIRA DO 401

A PRISIONEIRA DO 401

Mano Brother da Vergueiro

O casal de carcereiros saía para trabalhar lá no presídio – ainda tinham que pegar o ônibus e, depois, o Metrô – e, no caminho de sempre, passavam pelo prédio onde, invariavelmente, lá estava ela na janela. Quarto andar, nem precisava de grades de segurança. Quem iria escalar aquela altura, pelas paredes lisas do prédio?

Costumavam acenar para ela, que logo respondia com o seu gesto simpático e um sorriso bem ao seu modo, aberto. Ela ficava pensando “eles me cumprimentam com toda essa cordialidade, só porque o filhinho deles anda voando pra cima da Tininha, pensam que eu não sei!”. Talvez os dois nem estivessem ligados nas pretensões do Joca. Quem sabe, isso era lá da cabeça dela. E, também, que o Joca e a Tininha já tinham idade para escolherem o que bem entendessem, ou pudessem desta vida. Mesmo, assim, isso não mudaria em nada a vida dos três. O Joca e a Tininha é que teriam que mudar se pretendessem ficarem juntos.

Logo que os dois se afastavam, uns trinta, quarenta metros dali, ela voltava para o interior, propriamente dito, do seu apartamento. Às vezes, estava um caos, não dava nem vontade de começar o dia. Vontade mais, era de voltar pra cama. Mas, acabava como a maioria dos seus dias, frente à televisão. Uma tela de bom tamanho. Canais a dar com um pau. Sabia o que cada um queria ou, mais provável, o que cada um já tinha programado, há muito tempo o que ela iria assistir naquele dia. O seu guia estava na cabeça: 37, 10:40 – Os melhores crimes do dia (pra efeito televisivo – poderia ter acontecido há anos); 42, 13:30 – filme sobre a eficiência e inteligência da polícia norte-americana; 49, 15:15 – A história de um médico (cada dia uma história) que sabia tudo, mas, não sabia como curar a sua própria doença. Alguns canais desconhecia. Ainda que soubesse das suas existências, não costumava andar por lá. Por ter andado muito pouco, não decorara, como os outros, dos quais a sua programação mudava todos os dias, embora, sempre fosse a mesma.

O que a Tininha mais se invocava era com a mania de interatividade de sua mãe. A conta do telefone estourava o orçamento todos os meses. Cada ligação era uma merreca. Mas, vai somar tudo no fim do mês!! Toda a seleção nos Reality Shows, lá estava ela a votar em quem deveria ficar ou sair. Acreditava que já tinha contribuído pra proteger muitos participantes e, também, eliminar outros, que supunha maus carateres e outros defeitos. Ainda arriscava alguns sorteios. Achava que, um dia, ainda iria tapar a boca da Tininha, quando acertasse uma boa bolada, naqueles sorteios, a cujo bordão é difícil escapar, mesmo: “ligue agora, ta esperando o quê? Não quer mudar de vida, não?”. Isso repetido como dez vezes, feito metralhadora. Não há cristão que resista.

Um dia, ela perguntou pro seu vizinho, o Jackson Machado de Assis e do Pandeiro, se ele preferia o Alemão ou o Siri. Era decisão no BBB. O Machadão estava numa dieta de arrebentar, entendeu já numa das suas alucinações, que a sua vizinha teria perguntado: Camarão ou Siri? Ao que o Machadão respondeu, pra mim tanto faz, gosto dos dois. De qualquer jeito. Ela percebeu que o Machadão queria ficar em cima do muro. Esses jornalistas...

Justo nesse momento crucial, nesse vai, não vai, não é que o Joca se aproxima, pede licença, perguntando se a Tininha estava. Nossa, ela subiu nos tamancos! “Você pensa que a Tininha não trabalha, é? A Tininha só chega à noite, meu caro.”. Até o Machadão, pôs-se de saída, não estava dentro do apartamento, é só maneira de dizer que ele apressou-se em sair dali do meio do corredor, em direção ao elevador. O Joca nem vacilou, aproveitou o ensejo e saiu ao lado do Machadão – um paredão - passou pelo elevador, direto, e desceu mesmo pelas escadas. Jovem, calçando tênis antiderrapantes.

O Machadão reencontrou com o Joca, lá na frente do prédio. O Joca, ofegante.

- Afinal, o que ouve?

- Sei lá, meu senhor. O senhor, mesmo, viu e ouviu, eu só perguntei pela Tininha. Precisava a coroa dizer tudo aquilo?

- A Tininha, realmente, só chega à noite. O serviço dela é longe. Pega Metrô, mais ônibus...

- Não é isso, meu senhor, é o jeito que ela falou. A Tininha é minha namorada, já faz um tempão. É a primeira vez que vou lá. Sei que a Tininha chega tarde, mas ela me disse que soltaria mais cedo, hoje. Por isso fui lá, combinamos...

- Não esquente, não, rapaz. Fique por aqui e espere, se ela disse que vem mais cedo, já deve estar estourando por aí. Não ligue não pra mãe da Tininha, tem dias que ela está meio nervosa. Se você está namorando com a Tininha, ainda terá outras rusguinhas com a mãe dela. Tchau!

Não se passaram mais do que quinze minutos:

- Pô, Tininha, sua mãe, hein?

- Quê qui tem a minha mãe?

- Só perguntei por você, precisa ver a atitude da coroa, meu!

- Ora, Joca, não fica assim, ela não sai daquele ap, quando vê alguém se aproximar, sempre fica nervosa. Vai, esquece. Espere um pouco aqui, vou me trocar e já volto. Aos poucos, ela vai se acostumando com você.

- Oi, mãe. Cheguei cedo e amanhã, só trabalho à tarde...

- Aquele seu amiguinho, benza-te Deus!

- Não é meu amiguinho, mãe, é meu namorado. Vou me trocar e hoje não precisa se preocupar com a janta. Vamos pruma balada, aí. Não ponha o pega-ladrão na porta, eu chegarei mais tarde.

Ela nem precisaria cuidar da janta. Tinha alguma coisa que sobrara do almoço. Tininha saiu e ela pegando dois pedaços de pizza, uma leve aquecidinha no microondas, um suco de laranja e pôs-se frente à TV.

Colocou um filme no DVD, “Retratos da Vida”. Adorava a filha do Chaplin. Também aquele bailarino, dançando o tal de bolero de ravel, ela não cansava de ver. Filme longuíssima metragem. Nessas ocasiões costumava convidar dona Joelma para acompanhá-la. Depois de comer os dois pedaços de pizza, como havia companhia – dona Joelma não era visita – iria fazer mais tarde, pipoca, ainda tinha duas latinhas de cerveja lá na geladeira. As duas adoravam pipocas com cerveja. Quando assistiam “Retratos da Vida”, as duas, inevitavelmente, choraravam. Quando não era aquela cena da mãe do cara no asilo, já fora deste mundo, era quando o bailarino falava com a mãe, ao telefone, logo após a sua apresentação com o seu “Bolero de Ravel”. Sabe-se lá o que não vinha aos pensamentos das duas. Dona Joelma, costumava mencionar sempre a mesma frase “É... Mãe é mãe!”

Dona Joelma era uma ótima companhia, talvez a única, pra valer, mesmo. Era bem mais velha do que ela e havia tido outro tipo de vida, outra educação. Bem que ela gostaria de puxar assunto sobre certas coisas. Mas, dona Joelma poderia entender mal. Do que fez e do que deixou de fazer. Daquele jeito, ali encerrada, por livre e espontânea vontade, isso foi ficando em atraso. Ainda que, só numas fugidinhas, há muito tempo não fizesse sexo com qualquer regularidade; a falta dele a sufocava. Estava sempre planejando em recomeçar. Porém, o tempo ia passando, o cativeiro a que se submetera não se sabe por que cargas d’água, foi-se estendendo através dos anos. Então, o negócio era cuidar da casa, quando tinha paciência, das coisas da Tininha (comida e roupas, principalmente) e o resto do tempo dedicado aos seus programas de TV. Tininha é que parecia visita. Raramente conversavam.

Com o Machadão, lá de vez em quando – Machadão chegava muito tarde lá da Redação do jornal onde trabalhava (na verdade, bico) – também gostava de conversar. O diabo é que o Machadão parece que estava sempre por fora de tudo o quanto ela gostaria de comentar. Sujeito tranquilo, muita paciência e, talvez por isso, aquele dom de bom ouvinte. O Jackson chegou ali no prédio, ainda jovem; logo depois dela. Se não fosse aquele seu jeito meio desligado talvez atentasse para a vida daquela vizinha de tantos anos Quem sabe por isso, apenas conversavam vez que outra. Apesar de morarem porta a porta, bem dizer, ele apenas percebia que ela era uma pessoa reclusa. Ela, por sua vez, havia notado que ele trabalhava em jornal e costumava, sem fazer alarde, chegar um pouco tocado, apesar do peso. Ela intuía que aquilo fosse um hábito desse tipo de profissional. Mas, também, das vezes em que conversou com ele, notou que ele gostava muito de música, sem saber que o Machadão trabalhava, justamente, como cronista nessa área. Isso não lhe dizia respeito. O meio de comunicação de sua preferência era outro.

Quando a Tininha chegou, o Joca deixo-a na portaria do prédio, as duas ainda estavam assistindo o filme. Naquele ligeiro vacilo do andar, ela percebeu que a Tininha havia bebido algumas cervejinhas a mais. Com aquelas duas latinhas vazias sobre a mesa, não dava nem pra comentar. Tininha passou como pode, e foi deitar-se. Já passava das duas. Ela e a dona Joelma, logo que acabou o filme, também se recolheram. Amanhã, um novo dia, as três teriam muito que fazer.

Quando a Tininha estava aí pelos seus sete ou oito anos, seu pai se engraçou com uma outra lá, bem mais nova do que ele, juntou os trapos e foi-se. Bem que sentia a sua falta, costumavam sair, brincar no jardim, ele, por vezes a levava na escola e até nos desfiles de rua ele estava junto. Sua mãe fez tudo para que, ela própria, também, superasse essa fase. Pelo menos no início. E, assim, foram levando. Tininha ainda prestava algum tipo de serviço para o pai, através da Internet. Então, desse jeito, continuava com certa aproximação com ele. Ela, naturalmente, afastou-se. E, assim, fez do pequeno apartamento o seu novo universo físico. E por ali transcorria, praticamente, a sua vida. Aí, dava pra se entender as suas incansáveis viagens por tantos canais da TV a cabo. Com o advento da tv digital, Tininha, agora que havia sido promovida lá na firma, pensava em instalá-la para a mãe, pois, assim, teria mais autonomia na escolha da programação. Também, até porque o seu computador já apresentava algumas dificuldades para acompanhar melhor a confecção de seus trabalhos, estava cogitando comprar um novo, que atendesse com mais eficiência as suas necessidades profissionais e passaria aquele para ela. Seria mais uma opção para “sair de casa”.

A televisão já era um hábito, aceitaria sem qualquer resistência a troca de modalidade, mas, não ficou muito entusiasmada, não, com o tal de computador. Com o tempo, quem sabe? No dia em que vieram instalar aquele aparelhinho para transformar o sinal para a tv digital, Tininha ficou em casa, à tarde, para, junto com ela tentar entender todas as instruções que os técnicos certamente passariam aos novos usuários. Tininha, pelo que se podia notar, adquiria certos aparelhos e novas tecnologias com o pretexto de reaparelhar a residência com melhores e mais modernas condições para o seu trabalho. Nem parava quase em casa. Sem querer ser notada, estava, sempre, procurando um jeitinho de preencher melhor o tempo da coroa, já que ela impregnou-se naquele pequeno espaço.

Ela bem que já estava desconfiada que a Tininha partisse para aquela compralhada louca, parecendo uma grande consumista, era pra lhe agradar. Fez vista grossa, e começou a mexer no computador. A filha já havia lhe explicado mais ou menos como ligar e alguma escolha. Ela, numa tarde daquelas, pra não levantar a lebre com a Tininha, foi pedir algumas instruções para o seu vizinho, o Machadão. Logo pra quem! O Jackson Machado de Assis e do Pandeiro usava o Word 2003, como se fora uma máquina de escrever moderna. Pouco mais do que isso. O mais, colar umas figurinhas aqui, outras ali, e fim do seu repertório. Ela, praticamente, ficou na mesma. Mas, como ouviu uma vez duma amiga, “o negócio é ir fuçando”, passou a dividir o tempo entre a casa, a TV e computador. Com o tempo, dava a impressão que o computador começava a “ganhar espaço”, a TV foi ficando em segundo plano. Através das redes, duma hora pra outra, passou a falar com Deus e o mundo. Quando a Tininha chegava, ela fingia estar assistindo TV. A Tininha que não era boba, enquanto ela estava dormindo, se inteirava que ela estava navegando por tudo que é canto do Planeta. Nem ligava mais que a sua roupa estava sempre por passar ou dobrar, depois da corda. A conta do telefone, praticamente desapareceu.

Mas, tudo ao seu tempo. Não é que a louca do 401 me arruma um namorado! Virtual. A Internet tem dessas. As pessoas a criaram e ela dá de modificar as pessoas, recriando-as. A nova “relação” já estava pegando fogo. Tininha notava que o comportamento da mãe, agora, estava completamente desequilibrado. Tinha dias que chegava a casa, ela estava um doce. Outros, uma fera. Aparentemente, assim, à toa. “Aí tem coisa”, deduziu. Deixou pra lá. Cada um com o seu cada um. Ultimamente, tenho viajado na do Joca. Daí, ninguém me tira. E a vida continuou.

Quando ela se casou – pelas fotos dava pra ver – estava linda como ela só. Os olhos, que dizem serem o espelho da alma, não revelava nada. Pelo contrário, parecia que servia só para ocultar os seus mistérios. Ou os mistérios da sua alma. No computador, criou até arquivos só pra, de vez em quando, dar uma “olhada” na história da sua vida. Pelas redes, quando era preciso, usava as que melhor lhes convinha. Agora, sim, a TV, era só de vez em quando. Principalmente para não perder a amizade da dona Joelma.

Bem que dona Joelma já havia percebido que as sessões de cinema estavam, cada vez mais, espaçadas. Mesmo assim, nunca falou nada a ela. Afinal, era ela quem promovia as tais sessões. Se assim melhor lhe convinha, ela tinha todo o direito de estabelecer os dias em que elas se dariam. Também, que agora, os filmes eram menores, em termos de duração. Mal dava para comerem as pipocas e se deliciarem com a latinha de cerveja. Novos tempos! Sempre que dona Joelma ia lá, para as sessões de cinema, o computador estava coberto por uma capa de plástico. Só pra disfarçar. Um dia perguntou pra ela:

- Você não usa esse trem aí, não?

- Às vezes.

O tal namorado da Internet era, também, outro porra loca. Talvez porque não tivesse mais o que fazer, se parava a passar imeios a todo o momento. E ela, quando não respondia, escrevia um outro. Aquilo estava virando uma loucura. Naqueles Tec-Tecs, aconteciam de tudo. Tudo, mesmo. Assim, mesmo se considerando uma relação virtual, realmente, tudo parecia se tornar verossímil. Foi pegando um pique, tipo moto contínuo, que parecia que não tinha mais volta e nem como sair dali. O jeito era continuar. E isso durou uma eternidade. Pouco mais de um ano, mas, falando todo o dia, parece muito mais.

Ela teve, através da própria Internet, más recomendações ou impressões sobre a personalidade do seu “namorado”. Mesmo assim, continuou. Como disse o Abel Silva, na música com o João Bosco: o amor quando acontece... Não desistiu. Sabia que o cara era um baita dum duro. Já na última lona. Quis pagar pra ver.

Pois um belo dia, o seu namoradinho (namoradinho, porque era bem baixinho) surpreendeu-a, ao lhe telefonar da rua, dizendo que estava a sua espera num barzinho, desses de mesinhas na calçada num lugar bem conhecido da cidade. Tinha até floriculturas pelos arredores. Mas ele não era do tipo de lançar mão desses recursos. Foi logo pedindo, enquanto a esperava, uma dose de uísque, nacional, mesmo. E nem poderia ser de outra forma. Pra fazer um grau, talvez, mandou um táxi buscá-la em casa, e ficou adiantando o expediente. E, também, que já sabia, ela não aprovava muito bebidas alcoólicas, melhor antecipar-se ao tal encontro. Teria que maneirar no trago, mesmo que ela demorasse. Mulher pra chegar a um encontro, ainda mais pega de surpresa, leva uma vida.

Quando o táxi encostou no meio fio, o coração do coitado se parou a correr desvairado. Certo que a noite estava quente, mas o suor não provinha da alta temperatura. Ali, na calçada, estava uma temperatura até agradável. Era o seu nervosismo, mesmo. Linda, como ela só! Pensou. Lembrou daquela foto do dia do seu (dela) casamento. Será que os olhos ainda permaneciam guardando os seus mais profundos segredos, ou mistérios? Tinha que ver. Guardava até certo medo de encará-los. Pois pareciam os mesmos, um pouco mais graves, lhes pareceu. Mas, agora, ele estaria, sempre, sob a sua mira.
Fora algum ou outro detalhe, quase nenhuma surpresa. Nada muito mais do que os Tec-Tecs, MSN e webcan, já não tivessem mostrado. Mas a presença é algo incomparável. O chegar perto transforma um simples encontro em indescritível energia. Não há uma maneira clara de se explicar isso. É algo que tem que se sentir.

Quando os dois chegaram lá no apartamento 401, quase em frente onde morava o seu colega - quem diria - de trabalho, num jornalzinho eletrônico, o Jackson Machado de Assis e do Pandeiro, coincidiu com a chegada da Tininha. O Joca já até levava a namorada em casa, e ainda ficava lá pela sala, sem que com isso ela se incomodasse muito. Acostumou-se com a sua maneira de tratá-lo e até com as rusguinhas previstas pelo Machadão, naquele primeiro encontro, lá na porta do prédio. A Tininha, como era seu costume, continuou fazendo vista grossa, fingiu que aquilo nem era alguma novidade, a presença do namorado de sua mãe, o qual nem havia, ainda, sido apresentado. E nem precisava, sabia tudo a seu respeito. Sua mãe costumava repetir que a sua vida era um livro aberto.

- Ufa! Suspirou Tininha. Deu tchau pro Joca, e foi deitar-se.

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