sábado, 8 de outubro de 2011

O VELHO DA CADEIRA DE RODAS

O VELHO DA CADEIRA DE RODAS
(Crônicas da cidade)
Otávio Martins
Somente depois que ele ergueu o seu braço esquerdo até a cabeça, num breve instante, quando retirou o boné e tornou a colocá-lo sobre a sua calvície e, ainda, alguns fios de cabelos brancos, deu pra perceber que já era um homem idoso. Ainda mais visto do terceiro andar de um dos prédios que ficam ao redor do calçadão.
Antes, ao vê-lo ali, sentado, imóvel, daria pra imaginar que seria um boneco. Claro, o seu olhar estava completamente distraído. Outras pessoas, mesas, cadeiras e as casinhas com cobertura de sapé. Ainda os carros e motos que passavam pela ruela, que ligava as duas ruas mais conhecidas e principais da pequena cidade. A ideia de jerico de um dos administradores municipais achou por bem, rasgar o calçadão, lugar de descanso e lazer, proporcionando a alegria de alguns proprietários de automóveis e motos; os quais teriam, assim, um “atalho” entre tais ruas e uns lugares a mais onde pudessem estacionar os seus veículos. Pra isso, foi necessário, inclusive, arrancar uma árvore enorme (atrapalhava o caminho). Com esse mesmo olhar “futurista”, um outro administrador municipal autorizou, juntamente com alguns vereadores, que arrancassem, sem o menor pudor, o Mercado Municipal, para que fossem construídos três prédios, todos no modelo Caixa de Fósforos Fiat Lux, daquelas grandonas, de cozinha.
A menina que o conduzia era quem determinava o trajeto e, até mesmo, parar para falar com algum conhecido. A sua função era aquela mesma, dar uma volta com ele. Talvez nem tivesse consciência da sua importância. Ele, dava a impressão, bem que reconhecia. Ela fazia aquilo, automaticamente, antes de pensar nalgum tipo de obrigação. Parecia como uma intuição, para que ele pudesse se locomover pela cidade através daquela cadeira de duas rodas. Era o que o observador supunha. Um dos seus braços também estava comprometido, depois daquele derrame, ou AVC, como preferem os médicos. Por isso, dava pra se perceber que precisava, mesmo, de alguém que o conduzisse ou o levasse através de ruas e praças, por onde ele, antes da doença, provavelmente, costumava passar ou, simplesmente, passear.
Ela conversou por um longo tempo com uma conhecida, parece, bem ao lado de uma daquelas choupanas espalhadas pelo calçadão. Afora aquele retirar e colocar o boné, praticamente, nem se moveu. Na feição, mesmo, de um boneco; se estivesse em meio a alguma plantação, seria visto como simplesmente um espantalho. Enquanto esperava, seu olhar seguia em frente, parecendo transpor todos os objetos ou pessoas que pudessem estar movimentando-se à sua frente. Quase como a ignorá-los.
O que será que costumava pensar por entre esses seus andar-andar?

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