quinta-feira, 6 de outubro de 2011

O PEQUENO BURMAN

O PEQUENO BURMAN
Otávio Martins

Muitas pessoas pelas calçadas paravam para ver a passagem da caravana circense que desfilava as principais atrações do Gran Circo Libertad, que acabara de chegar à cidade. As crianças acompanhavam o corso, junto aos leões, tigres e outros animais ferozes, sem que isso lhes provocasse algum medo; sentiam-se protegidas pela simples presença de três ou quatro palhaços, dando-lhes a sensação de segurança para que se aproximassem, caminhando lado a lado às enormes jaulas sobre rodas. Outros animais formavam o grande desfile apenas pela condução de seus amestradores, como os elefantes e os dois macacos; um deles andando sobre uma bicicleta, como se fosse uma pessoa. A pequena banda, com instrumentos de sopros e tambores, tinha os músicos vestidos em túnicas coloridas de galões e botões dourados, regidos pelo elegante maestro que, sobre um caminhãozinho, completava a animação por onde a caravana passasse.

Máneman não poderia deixar de reconhecer a menina que ia à frente do corso com seus delicados movimentos, misto de bailarina e acrobata. De gestos graciosos, agitando as duas longas fitas coloridas - uma vermelha e a outra azul - deixando desenhos pelo ar. Quando as recolhia, exibia a sua arte ao ensaiar alguns passos de dança e a habilidade nos saltos ornamentais. Ele bem conhecia todos aqueles trejeitos para cada salto ou, até mesmo, os suaves movimentos do seu corpo para praticar aquela série de acrobacias e coreografias. Ali, ela se apresentava como baliza, em destaque, puxando o animado desfile.

Enquanto atentava para os participantes do desfile, Máneman parecia ter o olhar perdido, ou, talvez, resignado. Aquela alegria em movimento, espalhada lá embaixo, por toda a rua, apresentava-se como imagens presas a um passado não muito distante.

No alto do imponente palácio, numa vasta janela, de um largo parapeito, ele assistia a tudo, sem esboçar qualquer reação. Apenas olhava.

Encerrando o desfile, um enorme trailer, completamente tomado por coloridos letreiros e desenhos, confirmando o que Máneman já sabia: O corso, que se dirigia à rua de cima, era do Gran Circo Libertad, do pai de Betina, a sua amiga bailarina e acrobata, dos tempos de colégio.

O escolhido, não era exatamente uma autoridade que iria exercer o poder, mas, sim, a figura na qual, simbolicamente, estaria representada a
O PEQUENO BURMAN (2)
identidade da nação e de sua gente. Quando Máneman completou nove anos de idade, o Grande Conselho o reconheceu como o novo Burman. A um Burman não necessitaria qualquer relação ou parentesco com algum membro de uma dinastia ou descendência nobre, coisas do tipo reis ou rainhas. Os membros do Grande Conselho, que também eram representantes de outros tantos conselhos, ao morrer um Burman, tinham, numa de suas funções, o dever de escolher – muito mais pelos valores interiores ou espirituais quem, dentre os cidadãos de toda a nação, passaria a ocupar o sagrado lugar do novo Burman.

Tampouco existia uma idade pré-estabelecida para a pessoa, sobre a qual recairia tal escolha. Apenas que, depois de escolhido, sua condição como tal, seria para sempre.

Eram reverenciados por todos os membros de todos os conselhos e por todos os cidadãos pertencentes à nação, com tratamento extremamente respeitoso e, ainda mais, quase à maneira de um ritual litúrgico. Praticamente as pessoas não olhavam para o Burman, ao aproximarem-se dele, num gesto de profundo respeito – quase adoração – curvavam-se, baixando a cabeça quase até atingir o chão. Os cuidados, exagerados, dispensados a um Burman colocavam-no numa situação de alguém que vivesse, permanentemente, em uma redoma; mais do que protegido, inatingível. Por mais que alguém pudesse chegar perto de um Burman não se estabelecia qualquer outro tipo de aproximação. A adoração exercida sobre tal figura – imaginando-lhe, assim, sob uma espécie de auréola - a deixava, humanamente, cada vez mais, distante das pessoas comuns.

Quando o Gran Circo Libertad, quatro ou cinco anos antes, passou pela cidade onde Máneman havia nascido e vivido até os seus nove anos de idade, Betina ficou por três meses – últimos do ano letivo - em que o circo permaneceu ali, como aluna temporária, na mesma classe de Máneman. Costumavam ir e voltar para a escola juntos. Ele tinha imenso orgulho de permanecer ao seu lado no trajeto de ida e volta para a escola. Betina era de percorrer o caminho fazendo as suas graciosas acrobacias, o que despertava um enorme desejo em Máneman de, um dia, ele também pudesse vir a ser um menino de circo e, até, quiçá, fazer uma dupla com Betina.

Um mês antes de Betina completar o ano na escola – Depois o circo continuou o seu curso, se apresentando por outras cidades - coincidia com o acontecimento da escolha de Máneman, como a representação do novo Burman.

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