quarta-feira, 12 de outubro de 2011

CÃES SEM DONO

CÃES SEM DONO
Otávio Martins

Na volta do mercado, onde João exercia o seu trabalho do dia a dia, entre balaios de laranjas, maçãs, tangerinas e, até, fruta-do-conde, podia-se notar, também, uma quantidade considerável de cães. Ninguém nem se perguntaria de quem eram. Assim, com toda a naturalidade, sabia-se, apenas, que eram dali. Alguns, até nome – ganhavam-no – na maior parte dos casos, pelas suas características. Tinha o Peludo, que dispensa explicações sobre as suas características; O Zangado, não se podia chegar perto, que logo rosnava, mas, já não metia medo. Pelo menos no pessoal ali do lugar. E muitos outros.

Sutil, mas tinha alguma diferença quando alguém dizia “Sai pra lá, Peludo” ou, simplesmente, enxotando, levantava a voz e quase como uma ordem expedia: “Sai daí, cachorro!”. Um senhor que costumava ir sempre, quase que diariamente, ali, até andou cogitando de adotar o Zangado. Mas, depois, se lembrou dos netos, ainda pequenos, os quais, certamente, iriam se assustar com os seus rosnados e abafados latidos. Apesar de ser um cão pequenino. O Peludo era enorme; outro problema, além da alimentação. Os outros, eram apenas os outros. Nada mais do que cachorros da volta do mercado. Mesmo mansos e pacatos, não despertavam o interesse daquele senhor. E de ninguém. Todos conheciam o Peludo e o Zangado. Eram como as “estrelas” do lugar.

João era um cara terno. Tratava a todos como iguais. Pra ele tanto fazia o Peludo, o Zangado, ou qualquer um outro. Quando juntava alguns restos de comida pelos pequenos e precários restaurantes dali da volta, repartia-os em porções iguais. O Zangado, com todo aquele seu jeito, já estava condicionado a receber o seu quinhão sem alarde. O Peludo recebia um pouco a mais porque João achava que, para o seu tamanho, precisaria receber um pouquinho mais de comida. E, disso, nenhum deles, esboçava qualquer reação de descontentamento. E, assim, conviviam na santa paz.

Mas, sempre tem um dia em que os nervos estão à flor da pele. E não foi por natureza, não. Apareceu por ali uma cadela pretinha, com algumas pintas brancas. Nenhum deles a conhecia. Era a primeira vez que ela era vista por ali. Ainda, por cima, no cio. Foi um “Deus” os acuda. Os cachorros brigavam todos entre si. As cadelas pelo que se podia supor, enciumadas, latiam sem parar. Isso João já sabia, por alguns antecedentes, como fazer. Pegou a cadela e tirou-a dali, entre os braços. Continuaram os latidos, agora dos cães e cadelas. Porém, foram se acalmando. João tinha lá o seu jeito de acalmá-los, principalmente nessas ocasiões.

Passado um tempo, João, achando que tudo já estava calmo, esboçou em colocar a cadelinha, novamente, no chão. Que nada. Os cães mostravam-se briguentos e as cadelas, outra vez, começavam a latir, em voz alta. Então, ele achou por bem levá-la lá para a banca onde trabalhava. E ali, ela ficou pelo resto do dia. Mesmo assim, percebia que, de vez em quando algum dos pretendentes da cadelinha passava por ali, como a certificar-se se ela estaria, ainda, lá dentro.

No fim do trabalho João colocou a cadelinha, que agora ele a chamava de Piti, sobre um saco de estopa no bagageiro da sua bicicleta e levou-a para a sua casa. Precisava ver a cara de felicidade da Amelinha, filha do João, ao saber que a Piti, era um presente de seu pai. Talvez o seu melhor presente do Dia da Criança.

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