quinta-feira, 12 de novembro de 2015

"CARINHOSO" E SEU ELENCO - "MEU CORAÇÃO, NÃO SEI POR QUE"


  
*Mais crônicas de Otávio Martins Amaral aqui:
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Por Otávio Martins Amaral
       
                                                                                                                                         Agora, eu vou contar mais sobre o elenco de músicos e outros, lá do Carinhoso:

   O Zé Gomes, maestro, principalmente violão. Tocava um monte de instrumentos.
Tinha um cravo em sua casa. Mas, o violão era o seu forte. Arranjador. Costumava fazer os arranjos para as gravações da Diana Pequeno e outras cantoras. Resolveu parar de fazer arranjos e dedicar-se, somente, à direção musical do Carinhoso. Morava ali perto, na Avenida 9 de Julho, não lembro o número do prédio, nem do apartamento. Seus solos de violão para algumas músicas da Bossa Nova eram únicos. Levavam a sua marca. Parece que era de Santo Antonio da Patrulha, no Rio Grande do Sul. Um verdadeiro artista. Era casado com a Alda, gaúcha, acho que, também, da mesma cidade. Brava como ela só. O Zé, sempre o mesmo, principalmente quando se tratava de uma mulata. Anos depois, acho que era 2003 ou 2004, fui assistir um show com ele e o Diamandu Costa (bom de violão – sete cordas – também gaúcho) no SESC-Vila Mariana. O Zé, neste show, tocava Rabeca.  Acabou indo morar na Serra da Cantareira. A Elis Regina parece que morava nessa Serra. Nunca fui lá. Disse que morava numa espécie de sítio. Dum lado, o Sérgio Reis e, do outro, o Amir Satter. Soube, através da Internet, que havia morrido em 2009. Parece que o filho dele e da Alda, o André Gomes toca contrabaixo. Não tenho certeza. Quando a Alda viajou para o Rio Grande do Sul, ficou sozinho no apartamento. Certa noite me convidou para ir até lá. Acabei dormindo no seu apartamento. Convidou, também, a Antonieta, mulata, jovem e bonita. Fiquei sozinho, num colchão no chão de outro quarto. Por volta da hora do almoço, chegou a Alda. Ainda bem que ele havia colocado o pega-ladrão. Quando ela começou a apitar na campainha e forçar o pega-ladrão, foi um deus nos acuda. Colocou a Antonieta no meu quarto, pelada. Disse pra Alda que ela estava comigo. A Alda não engoliu muito bem a estória do Zé. Depois, bem mais tarde, veio ao “nosso” quarto e, cinicamente, perguntou-me: “Comeu?”. Respondi que não, porém, que havia rezado bastante. Grande músico, imensa pessoa. Sinto muito por não ter ido vê-lo lá na Cantareira. Éramos grandes amigos.                                                
O Toninho Ramos, toca violão de sete cordas. Bom nos clássicos

(principalmente Bach) e ótimo no popular. Uma pegada admirável. Estudei uns meses com ele. Pelo menos aprendi a ler e escrever, um pouco, na pauta. Foi acompanhando o Martinho da Vila, num show, pela Europa, não voltou, ficou morando em Paris, na Rua Dauphine, 43, parece, em 1974. E, por lá, ainda vive. Nessa época, eu trabalhava com o Ruggero Fanelli, no Chopping 3, Paulista com Augusta, onde aprendi a fazer Osso Buco, Strogonoff  e terminei o aprendizado das panquecas, o qual havia começado com a Alda, mulher do Amaral, em 1963, lá no Campos Elíseos, na Alameda Nothmann. A Flora Vidal, uma amiga, também trabalhava no Ruggero, cantando, acompanhada pelo Toninho Ramos. Eu era da cozinha, fazia o caixa ao meio-dia e ficava por ali, à noite, escutando música e ajudando o Ruggero no preparo do almoço do dia seguinte. O restaurante do Ruggero, à noite, virava Bar do Ruggero. Íamos até ás três da madruga. Depois, uma sopa de cebola no Ceasa e íamos até nossa casa tomar um bom café, no Bexiga. Era ótimo.
O Toninho Ramos tinha uma, acho que era namorada, a Rosa que trabalhava como meio cantora, num inferninho na Boca do Luxo, na boate do Maurício, amigo do Amaral. O Toninho morava com a Maria (descendente de alemães), lá no Itaim. A Maria vinha buscá-lo no Carinhoso, no meio da madrugada. Numa dessas, a Rosa apareceu por lá. Não presenciei o começo, mas vi a Rosa sapateando no capô do Opala da Maria. O Toninho acalmou a Rosa e se foi com a Maria para casa.
Em 1980, ele veio a São Paulo. Trazia uma fita, gravada com o Paulinho Ramos (vive no Canadá) seu irmão que, também andou cantando e tocando lá no Carinhoso. Gravada lá na França, muito boa; só com música brasileira. Levei, entusiasmado, lá pro Toninho do selo Eldorado, que ficava na Rádio Eldorado e pertencia ao Estadão, ali na Major Quedinho. Na terceira investida, desci – o Toninho estava me esperando no bar ali embaixo, Mutama, se não me falha a memória – e falei pro Toninho Ramos que o Toninho do Eldorado, na próxima vez que eu viesse me daria uma resposta. O Toninho Ramos disse que não precisava, na manhã seguinte iria “voltar” para Paris. Acho que havia percebido que a coisa por aqui continuava na mesma. Nunca mais o encontrei. Acho que nem o encontrarei. Melhor, assim. Torço para ele continuar em Paris.

Celso Miguel. Ô sujeito doce! Assim, também, é a sua voz. Adorava

  conversar com o Celso. Casado com uma mulata muito bonita. Às vezes ela aparecia lá no Carinhoso. Quando ele estava gravando, acho umas músicas para um LP, fiz umas fotos para a capa e encarte, nunca vi essas fotos. Nos fundos do sobradinho onde eu morava, pintei uma janela, de várias cores, por várias vezes, para fundo, fazendo essas tais fotos. Não cobrei e nem poderia cobrar do meu grande amigo Celso Miguel. Parece, me disse o Zé Otacílio, que ele estava aparecendo num comercial, como aposentado, acho que do INSS. Mandei uma mensagem pela passagem do seu aniversário, no ano passado. Bem mais novo do que eu. Grande amigo.

O Jacy tocava muito bem o seu contrabaixo acústico, até dormindo.

Quieto, porém, o seu contrabaixo além de marcação perfeita, a base era com ele mesmo. Gostava, é verdade de tomar umas durante a noite, mas, era sempre o mesmo; educado, nunca vi ele levantar a voz para ninguém. Eu gostava muito do Jacy, até por que, também, era o nome do meu pai. O Jacy era bem pretinho, nunca vi alguém ter alguma atitude de discriminação com ele. Tampouco o vi discutindo com alguém. Cuidava da sua (dele) vida e de seu instrumento.
Somente um incidente, se assim se pode chamar. Ele ficava bem na pontinha do palco (baixo, uns trinta centímetros). Acompanhava, normalmente, o Jorge Costa, o Swing ou o Toninho Ramos. Numa dessas, veio para o chão, com contrabaixo e tudo. Somente quem percebeu, mesmo, foi a galera do gargarejo. Alguém, que não lembro, pegou o seu contrabaixo, colocou no lugar (segurando) onde ele estava tocando e ele voltou ao seu lugar e continuou, como se nada houvesse acontecido. Muito discreto, mesmo.

O Marinho era um músico fixo. Batera dos bons. Vinha todas as noites,

exceto nas folgas, aos domingos. Versátil, tocava com qualquer um.  Nunca vi ele chegar no bar do Carinhoso e tomar alguma bebida de álcool. Também nunca o vi de cara limpa. Sei lá como é que ele fazia. Sempre alegre e faceiro. Chamava-me de Tavinho, fotografei o seu casamento. Ele sentiu-se muito honrado. Eu fui, também, padrinho do seu casamento. Não lembro onde era, sei que era longe pacas. Foi quando percebi quanto sacrifício para ir tocar no Carinhoso. Sair no meio da madrugada e ter que voltar para a sua casa. Ganhava uma merreca, como os outros. Nunca  reclamou. Fiquei gostando mais dele, depois do seu casamento. As fotos dei-as de presente a ele, com um álbum que fiz com papel cartaz. Acho que ficaram boas. O álbum, também.
Depois, contratamos outro baterista para revezar com o Marinho, o Tim Maia. Nunca Soube o nome dele, desde o começo, ali no Bar dos Artistas, São João com Ipiranga. Era mais parecido com o Tim Maia do que o próprio Tim Maia consigo próprio. O Tim Maia, era cantor, além de baterista. O nosso, não, nunca engordou. Era um autêntico Tim Maia. O cachê do Carinhoso não permitia exageros.
Lembrei dele, anos depois, quando fui trabalhar na Ilha de Santa Catarina, em Floripa. Conheci um garçom lá no Telhado de Barro, o qual apelidamos de Quércia. Depois, ficou mais parecido com o Orestes Quércia. Não fez plástica alguma. Manteve o mesmo nariz. Era mais parecido com o Quércia que eu conheci do que o próprio Quércia. Jamais o esquecerei. Numa temporada, cheguei atrasado e ele me conseguiu um trabalho lá no restaurante onde trabalhava, que dava casa e comida, também. O baiano ia embora pra Bahia e eu fiquei no lugar dele. Sua primeira frase, também, jamais esquecerei: “Esse bichinho dá mais trabalho morto do que vivo.”. Fiquei uns dias trabalhando e assando frango, naquelas máquinas rotativas. Mas, isso, é outra história.

Benito di Paula

Trabalhava no Carinhoso e dobrava no Lapinha, na rua
de cima, viaduto 9 de Julho. Parece que era do Roberto Luna, grande intérprete de boleros e tangos. O Benito subia e descia os degraus do viaduto, com um pé nas costas. De mesa em mesa, por vezes, cantava músicas do Lupicínio Rodrigues. Saía do Carinhoso, no meio da madrugada e, ainda, ia caitituar o seu disco, produzido pelo Alfredo Borba, que tinha um programa de rádio. Uma vez me contou que suas letras eram fatos acontecidos com ele. Nessa época ele estava, parece, trabalhando uma música que não lembro o nome, mas, dizia assim: “Aproveitou o silêncio da madrugada/Como uma ladra, ela saiu e me deixou...(levou até o seu violão, me falou)”. Esporadicamente, íamos ao Papai da Aurora. Mais certo, mesmo, era irmos até o Jeca (São João com Ipiranga) tomar um bom Caldo Verde. Noutras madrugadas comíamos no bar do japonês (nesse, à noite, mais cedo) que ficava, também, na Álvaro de Carvalho, bem pertinho do Carinhoso. A especialidade do Japonês era Peito de Peru na chapa e moela de galinha com molho de cebola, ao pão francês. Até hoje, não consigo mais olhar para mortadela e nem moela de galinha. Quando íamos comer a feijoada do Papai da Aurora, logo após, tínhamos que dar um tempo. Uma hora, no mínimo. A barra pesava.

 O Jorge Costa, às vezes se apresentava lá no Carinhoso. Compositor,

músico e cantor. Tocava um tan-tan, não sei bem o nome. Sempre cantava o seu samba, muito conhecido naquela época. Triste Madruga, contava ele, que fez depois que o Chico Buarque havia lhe contado, ali na Galeria Metrópole, no subsolo, triste, como havia
perdido o seu (do Chico) violão. “Triste madrugada foi aquela/Em que eu perdi meu violão/Não fiz serenata pra ela/E nem cantei uma linda canção...”. Contava o fato com tanta firmeza que, até hoje, eu acredito na sua (dele) versão. Era amarrado num conhaque. Nessa época, só Dreher, nada de Napoleón.

Waltão, o criador da Tensa. A Timba consistia em tocar num banquinho

baixo, entre a barriga da perna e o banquinho, uma espécie de tumbadora, deitada. Com uma mão batia no coro e, com a outra, uma vassourinha (dessas que os bateristas usam) batendo na madeira. Os melhores ritmistas, não sei se é impressão minha (Naná Vasconcelos é um bom exemplo) são negros. Se ele fosse pequeno, que nem eu, o chamariam de Waltinho. Vocês devem imaginar como era o Waltão. Boa (aliás, ótima) estatura. Se pegarmos o contrário, no Trio Mocotó, que acompanhava o Jorge Bem, tinha um cara que tocava Timba, o nome dele era Joãozinho Paraíba. Branco e pequeno. Diziam que o pai dele era o dono dos cobertores Paraíba, daí o nome Joãozinho Paraíba.

Mil e Uma Noites da Cuíca

Não encontrei foto do Mil e Uma, coloquei a
do Oswaldinho da Cuíca, compositor Escola de Samba Vai-Vai, do Bexiga que, algumas vezes, apareceu por lá. Acho que só de visita, junto com o Geraldo Filme. Quando o Armstrong pisou na Lua, o Mil e Uma foi taxativo: “Isso é tudo mentira; filmado nos estúdios de Hollywood.”. Ponto final.

Barbosinha – Outro que não encontrei a foto. O Barbosinha era fixo. Tocava todas as noites. Era o sambista da casa. Sempre sorrindo. Entrava no palco quantas vezes fosse necessário. Bebia bem, mas, nunca estava bêbado. Gostava de maconha. Uma noite, acho que comprou um pouco a mais e foi puxar um xadrez por mais de um ano. Preso, injustamente, por tráfico. Contratamos o seu filho, como ritmista para segurar as pontas em sua casa. Acompanhava-se, tocando o violão. Ótima pessoa. Bom papo.

O Swing (não encontrei a foto) cantava acompanhado, sempre, pelo seu Reco-reco. Muito bem estruturado, de metal, duas molas e batia com um pequeno bastão de ferro. Dava pra todo mundo ouvir. Sempre sorrindo. Mesmo quando estava bravo. Por vezes, dava uma força para o Jorge Costa.



A turma do Jogral. Nos fins de semana, a gente apresentava quase que
todo o time de músicos lá do Jogral, do Luis Carlos Paraná. Chamávamos de dobra. Apresentavam-se no Jogral e, depois, no Carinhoso. Tinha o Manezinho da Flauta (sobrinho do Pixinguinha); O Ditinho (Benedito Costa) do Cavaco; O Pedrinho Miguel (cantor), era amarrado num licor Cointreau, o Evandro do bandolim.



Tinha, também, o Atayde da flauta. Quando estava por perto, Atayde, ao longe, Frango d’água. Costumava dar umas broncas no Carioca (sete cordas) que o acompanhava, sempre. O Regional, ele costumava armar momentos antes de entrar no palco do Carinhoso. Primava pelo andamento e arranjo, originais.



Filó, compositor, cantor e músico. Tinha o irmão
dele que, de vez em quando tocava lá, o Celso Machado, bom de violão, principalmente clássico. O Filó arrumou para dobrar numa outra boate,
lá na Consolação, sumia, dificilmente voltava. Convidei o Celso Machado para fazer o violão na música Salve, no LP do Riberti. O Filó fez um arranjo e até tocou teclado, lá no estúdio Spala, do Dionísio Moreno, parece, no mesmo LP, no qual eu era o assistente de produção do Riberti.



Régis do violão. Dentista. Era muito amigo do José Otacílio, filho do Octacílio Amaral, o Amaral do violão. Tocava muito bem. Violão suave, belos acordes. Mineiro. Muito falante. Gostava de ir ao Papai da Aurora com a gente, comer a feijoada, às terças-feiras, de madrugada. Eu ficava no caixa e responsável pelos dois refletores que iluminavam os músicos. Quando o próximo demorava muito. O Régis mostrava, lá do palco, o dorso da mão esquerda, com os dedos dobrados. Era sinal que já estava tocando há tanto tempo e que os dedos estavam, já, desgastados. Era, apenas, uma brincadeira. Tinha outras brincadeiras, chamava aquela parte da mulher, que vem logo abaixo da barriga e perde-se pernas adentro, de Testa do Tatu-Meren. Não sei de onde ele tirou esse nome.





As cantoras Claudia Regina (tinha a mania de imitar a Elis), até para falar. Tinha outra, não lembro o nome e a Márcia, que fazia dupla com o seu marido, o João. Anos depois, encontrei o João na noite de Porto Alegre, no Bar 8 e meio, do qual eu fiz a decoração, acompanhando o flautista Plauto Cruz. João Pernambuco, bom de viola.



Outros passaram pelo Carinhoso, mas, esses que relacionei, são os que mais marcaram o estilo da casa. E, também, por mais tempo ficaram na boate. Teve o Macumbinha, muito bom de violão. Inventor do Jequibau. O Mauricy Moura, cantando acompanhado pelo seu violão e outros. Sumia, quando aparecia por lá o cantor Antonio Marcos.





OCTACÍLIO AMARAL era o dono do Carinhoso e tocava muito bem o
seu violão. Já havia tocado na Rádio Nacional, junto com o Bola Sete, Laurindo de Almeida, Dilermando Reis, Luis Bonfá e mais um time pra ninguém botar defeito. Apesar de ser o dono da boate, aparecia por lá, só de vez em quando. Quando saíamos, gostava de ir a pé para casa. Morávamos na Alameda Nothmann, ao lado do Palácio dos Campos Elíseos. Daquele que roubava, mas fazia. Sabia tudo de marchinhas e outras músicas brasileiras. Fazia, no Carinhoso, dupla com o Casanova, que tinha uma coluna sobre música, no jornal O Estado de São Paulo. Espécie de desafio. O Casanova também sabia muitas músicas brasileiras. Memória privilegiada, o Amaral, levava a melhor.


Silki. Numa época, talvez durante uns três meses, quando saíamos do Carinhoso,
passávamos ali na São João, quase ao lado do Jeca. Ele queria visitar um amigo seu, o Silki, faquir, também gaúcho. Mas, sempre encontramos o Silki bem, ficou 103 dias ali, dizia que “sem comer”. Adelino João da Silva, o seu nome verdadeiro.



Lupicínio Rodrigues. Costumava aparecer somente uma vez por ano. Era amigo do Amaral. Compositor, o qual inventou o termo dor-de-cotovelo e, além das letras machistas/gaúchas – “O remorso talvez seja a causa do

seu desespero/Você deve estar bem consciente do que praticou/Me fazer passar tanta vergonha com os companheiros... ou “Mas desta vez eu vou brigar com ela/Mesmo que por isso eu tenha que morrer/Ela sabia, que eu não queria/Que ela saísse, sem me dizer...”. Compôs, também, o hino do Grêmio de Futebol Porto Alegrense, “Até a pé nós iremos... Na intimidade, o Lupa.


Enquanto a música comia solta lá no salão, o León, o Professor (professor de matemática e comerciante de móveis na Rua Augusta), o e eu, jogávamos Xadrez, no camarim. Cada qual pior que o outro. Organizávamos campeonatos. A classificação era da seguinte forma: 4º, 3º, 2º e Campeão. Contagem de pontos, parelha.

Mais alguns que por lá apareciam, o José Maria do Prado, jornalista, sempre com a sua namorada, uma japonesa. O Zé Maria havia criado o Globo Repórter, junto com o Pacheco Jordão. A Globo colocou os dois no estaleiro e mudou o tal de Globo Repórter. Daí, essa merda que a gente vê, hoje, na Rede de Intrigas. O Roberto Roslindo, dentista. Tinha o seu consultório ali na praça atrás da Biblioteca Mário de Andrade, a qual ficava em frente à Galeria Metrópole. Outros, que nem lembro.



Os porteiros, fundamentais, desde a entrada. O Mané começou com a gente.
Impecável, calça e paletó azul-marinho, camisa branca, gravata, também azul-marinho e, o que não poderia faltar, o quepe; também azul-marinho e, assim, permaneceu até o fim. Nunca foi até o bar do Carinhoso para pedir alguma bebida alcoólica. Apesar disso, estava sempre pronto. Acho que guardava a sua garrafa de cana ali nalgum canteiro do Viaduto 9 de Julho. Não cambaleava, ainda bem. A freguesia sempre o conheceu assim. Então...



Depois, veio o Alemão. O Alemão gostava de, no final da noite, enquanto eu fazia o caixa, pouco trabalho, cantar no microfone. Eu, já deixava ligado para ele. Fechava a porta, pegava o microfone e cantava. Não sabia de onde ele havia tirado aquele samba. Um dia, escutando uma FM, escuto o tal samba, recentemente gravado pelo João Gilberto, que dizia, assim: “Ai, ai, ai, Isaura/Hoje eu não posso ficar/Se eu cair nos teus braços/Não há despertador que me faça acordar... se você quiser, eu fico/Mas vai me prejudicar/Eu vou trabalhar. O Alemão cresceu no meu conceito. A partir daí, para deixá-lo mais à vontade, eu dizia, canta aquele samba do João Gilberto. Mas, o João Gilberto, na madrugada, àquela hora, não iria trabalhar; estaria recém saindo do Beco das Garrafas, lá pras bandas do Rio de Janeiro, provavelmente junto com o Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o Tom Jobim, e o poetinha, Vinícius de Moraes.



O Cachimbo, muito amigo do José Otacílio, era o Relações Públicas do Carinhoso.
Lembro que tinha uma namorada lá na baixada santista, a Sara. Mulato, alto, cabelos grisalhos. Lembro, maneira de dizer, ele é quem contava pra gente sobre essa sua namorada, dizia que era judia. Quase moramos no apartamento, na mesma Rua Álvaro de Carvalho, do Antonio, que acabou sendo sócio do Carinhoso, que já era do José Otacílio, português. Raramente sorria, usava óculos e parecia um intelectual. Sempre levava no bolso do paletó, o seu livrinho de palavras cruzadas, que ele comprava na banca de jornal, que ficava ali em cima, no viaduto, quase em frente à Biblioteca Pública Mário de Andrade.



Quase fomos em direção ao Jazz. O Vieirinha, nosso maitre, sujeito muito simpático. Sempre recebia a clientela do Carinhoso com o seu sorriso aberto. Tinha muitas amigas, no final, todas freqüentavam o Carinhoso, por conta da amizade com o Vieirinha. Com elas, o Carinhoso quase virou um inferno, pequeno. Quando precisamos de um piano (tipo armário), lá estava o Vieirinha que, através de uma de suas amigas, que morava na Barra Funda, bem próximo ao Teatro São Pedro. Transporte especial e, depois, um afinador. Tudo para o tecladista Fogueira estrear com o seu grupo, a música de Jazz, no Carinhoso. Não vingou. Voltamos para o samba. Durou de 1968 até 1972. Estivemos, até, na baixada santista, em Ubatuba, num carnaval. Lembro até do cartaz, criado pelo Sagese, uma tumbadora, em preto e branco. Conosco, estava o Théo (Theófilo Urioste) e o Sapiran Brito, lá de Bagé, ex-chefe de escoteiros e, também, ex-Secretário de Cultura e, vice-prefeito do município, no governo do Varguinhas (PDT).



Assim era o Carinhoso, uma casa de samba, no centro de São Paulo, inaugurada em 1968.



Otávio Martins Amaral

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

MEU CORAÇÃO/ NÃO SEI POR QUE...

                

MEU CORAÇÃO/ NÃO SEI POR QUE...


Otávio Martins Amaral

   Quando eu trabalhava com o Martinez e o Reis, lá no estúdio de fotografias, na Rua Augusta, logo passando a Antonio Carlos, o Octacílio Amaral, bom de viola, meu primo, através de seu filho o José Otacílio, resolveu abrir uma casa de samba em São Paulo, o bar recebeu o nome de Carinhoso, em homenagem ao Pixinguinha e João de Barro (o Braguinha). O local havia sido uma garagem de um prédio, cuja frente dava para o Viaduto Maria Paula, ao lado de um restaurante espanhol (tinha uma Paella muito boa) de frente para o Estadão. A garagem, que transformamos em bar, ficava na Álvaro de Carvalho, 190, quase debaixo do viaduto 9 de Julho. A decoração ficou por conta de imensas fotos feitas pelos dois, Martinez (judeu argentino) e o José Reis (um grande fotógrafo), amigo do Thomaz Farkas, da Fotóptica. Ficaram lindas as fotos que decoravam o Carinhoso: minhas mãos serviram como modelo, tocando violão; uma, enorme, afixada em uma coluna (redonda), com uma relação dos grandes violonistas de todo o mundo; também, a partitura de Carinhoso, música do Pixinguinha, um dos maiores compositores brasileiros.
  

 O Amaral (Octacílio Amaral) aparecia lá só para tocar o seu violão, relembrando marchinhas, junto com o Casanova, que escrevia sobre música, numa coluna do O Estado de São Paulo. Falar em jornal, o Shopping Neews, um pouquinho acima do Carinhoso. Abaixo, uma garagem, com elevador e tudo, ao lado do boteco (sujinho) do japonês e mais abaixo, ainda, uma boate (inferninho) dum outro japonês. A portaria ficava a cargo do Tobias, de terno e quepe, como mandava o figurino. Mais acima, no comecinho da Avanhandava O Jogral, bar ou boate, do Luis Carlos Paraná. Lá, eu assisti Clementina de Jesus acompanhada pelo violão do Turíbio Santos e outros grandes nomes da MPB.
 

Isso foi em 1968/69. Durou até 1972. Muita gente boa da MPB passou pelo Carinhoso. A maioria se apresentava no Jogral e dobrava no Carinhoso, nos fins de semana. Primeiro time de músicos da noite. A direção artística, a cargo do Maestro e violonista gaúcho, Zé Gomes. O Zé tocava, entre outros instrumentos, violão. Além de clássicos, Bossa Nova (solista) e tudo mais. Era um ótimo músico. Até um painel de artes plásticas ele fez lá no Carinhoso, no fundão. Era um artista, em todos os sentidos. Sempre fumando, usando a sua piteira, que tinha um filtro, não sei pra que.
   

Tinha o Celso Miguel, o Barbosinha, o Jorge Costa (Triste madrugada foi aquela...), o Swing (tocava o seu Reco-reco e, ainda cantava), Mauricy Moura (aquele que fez sucesso com A Professorinha do Ataulfo Alves). E, um monte de músicos, da pesada. Macumbinha, Toninho Ramos, Régis. O Waltão (inventor da Timba), Pedrinho Miguel (só tomava licor, grande prejuízo para o Carinhoso), Marinho batera, Mil e Uma Noites da Cuíca (lembro quando os americanos pisaram na lua, ele foi taxativo: “Isso é tudo mentira, filmado nos estúdios de Hollyood”, com o seu terno branco e lenço de seda, azul. Impecável. O Jacy, baixo de pau. O Bira do atabaque e o Luis Carlos, pandeiro, depois foram tocar com o Benito de Paula, que também cantava lá no Carinhoso – dobrava no Lapinha, do Roberto Luna, logo que subia o Viaduto 9 de Julho. Magrinho, subia e descia as escadarias do viaduto, com um pé nas costas. Quando tinha uma graninha mais, íamos ao Papai da Aurora, terça para quarta, feijoada e, de quebra, O Cauby, que só dizia CON-CEI – ÇÃO..., do jeito que está na música, alegrava o fim de noite de todos nós. Ditinho do Cavaco, Evandro e seu Regional e, ainda, o Manezinho da Flauta, sobrinho de Pixinguinha. Tinha, também, o Filó e seu irmão, o Celso Machado, tocando violão clássico. Também as cantoras, Márcia, mulher do João; Cláudia Regina (tinha a mania de imitar a Elis); Não lembro mais. O maitre era o Vieirinha, grande figura da noite paulistana.
  

 O Amaral havia gravado um LP na Rosemblit, “Sua Excelência, o Violão”, na cidade do Recife, em Pernambuco. Solista de violão, do primeiro time, somente um músico o acompanhou, o   ..... Esse cara, amigo em comum de outro gaúcho que, de vez em quando, aparecia com ele lá pelo Carinhoso, era o Lupicínio Rodrigues. Também, um autor importante, esse, do teatro brasileiro, o Plínio Marcos, que se apresentou num show junto com os sambistas Zeca da Casa Verde, Silvio Modesto, Talismã, Toniquinho e o grande e inesquecível Geraldo Filme. Os melhores sambistas de São Paulo passaram pelo Carinhoso. 

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quarta-feira, 4 de novembro de 2015

JOÃO DO VALE, AQUELE DO CARCARÁ.


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JOÃO DO VALE, AQUELE DO CARCARÁ.

 Jackson Machado de Assis e do Pandeiro

   Nem sei como conheci o João, só sei que, sempre que vinha trabalhar em São Paulo, ficava lá na nossa casa, da Flora, do Benito e minha, no Bexiga, centro de São Paulo.
   A gente morava no Jardim Francisco Marcos, uma travessinha da Rua da Abolição. Sobradinhos e um paredão. No paredão, um portão. Saída dos trabalhadores do TBC, Teatro Brasileiro de Comédia, o qual ficava na Rua Major Diogo (a rua de cima). Inclusive os artistas. Por vezes passavam por nós. Mas, eu nem sabia quem eram. Gente da pesada! Soube depois.
   O João costumava aparecer lá em casa com uma amiga, não lembro o nome, que era cleptomaníaca. Avisava que vinha (o João), a Flora deixava algumas “jóias” bem à mostra. Como eram baratas, a amiga do João as levava de vez. Assim, a Flora não tinha quase prejuízo e, todos nós, numa boa, curtindo a visita do João do Vale, autor de Carcará, gravada pela Maria Bethânia.  Estou lembrando, o João era amigo da Flora Vidal, que era cantora, já havia morado no Rio de Janeiro, onde, agora, morava o João, nascida em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo. Terra, também, do Roberto Carlos, aquele da Jovem Guarda.
   Logo ali, o Teatro Oficina, na Jaceguai, parece, com o Zé Celso na sua direção.
   Certa vez, quando o Zé Kéti também estava em São Paulo, lá pro bairro do Limão, com os seus percussionistas, fomos, os três ao bar Clube do Choro (do Elton, Reinaldo, Ronaldo e Roni, todos irmãos, todos judeus,). Sentamos numa mesa do lado de fora, antes da mureta que a separava da calçada. Lá em Pinheiros. Eu estava morando – o Valgênio Rangel, também - no apartamento do Gudin, na Cônego Eugênio Leite, abaixo da travessa do bar. Eu não sabia, mas, estava ali, comigo, mais da metade do elenco do show OPINIãO, dirigido pelo brilhante Augusto Boal, no Rio de Janeiro, no Teatro Opinião, parece que em 1968. Tão importante o show, que o teatro (Teatro de Arena) ficou conhecido como Teatro Opinião. Seu diretor, me disseram, era o Vianinha. Os atores eram o João do Vale, o Zé Kéti e a Nara Leão. Depois, é que veio a Betânia, irmã do Caetano. E eu, ali, com quase todo o elenco do show Opinião. Não é pra qualquer um, não. Também, a gente não é obrigado a saber tudo, né?
   O João era uma figura rara. Sujeito bom, sincero e talentoso. E, bom de copo. Lembro que no show (parece que era no Teatro João Caetano, num bairro desses de Sampa) o João contava (de camisa branca e pés descalços) que, quando chegou ao Rio de Janeiro, foi trabalhar de ajudante de pedreiro, numa obra lá. O radinho de pilha, o seu chefe, pedreiro, deixava em cima dos tijolos. No radinho, começou a tocar Pisa na Fulô, recém gravada pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga, o Gonzagão. Ele disse pro seu chefe: “Essa música é minha” o que lhe custou a resposta: “Vai puxar massa, neguinho, vai. E vê se para de sonhar”. João largou o carrinho junto à massa e sumiu. Disse ele que foi na Rádio Nacional pra saber da tal gravação. Não sei se isso é verdade. O que o João contou lá no show é o que eu estou, agora, a contar. O João e eu, sempre inventávamos coisas...
   No sábado, não fui ao show com o João. Antes de sair ele prometeu que faria no dia seguinte, domingo, uma galinha ao molho pardo. Não levei muito a sério. O show, mais as biritas, o João não iria chegar a tempo, para fazer o almoço. A tal de galinha ao molho pardo. Ás dez horas da manhã, domingo, fui até o portão, só por ir. Vinha o João, com o seu par de sapatos debaixo de um braço, no outro, uma galinha branca, viva. Mais atrás, a cleptomaníaca da sua amiga. Reservara um garrafa, cheia, de 51, a preferida do João. O Benito não bebia, acho que nunca bebeu. Comentou que eu nem havia provado a Galinha ao Molho Pardo do João, tentando acompanhá-lo na 51. Ele é que não viu, entre um martelo e outro da 51 um pedaço de galinha. Estava ótima a Galinha ao Molho Pardo feita pelo João. Um domingo inesquecível, aquele.

Paulinho Nogueira - Aria na quarta corda (J.S. Bach)



*via amigo Otávio Martins Amaral que foi amigo de Paulinho Nogueira e batia bons e longos papos com ele nesta mesma salinha onde o vídeo foi gravado! Há momentos inesquecíveis e fortes demais, nesta vida...e também, grandes artistas como Paulinho Nogueira!

*postado originalmente no Blog Sarau Para Todos

https://www.youtube.com/watch?v=27_vZxpl-2U

 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

"ALGUMAS LEMBRANÇAS" - LIVRO E-BOOK DE OTÁVIO MARTINS AMARAL - EDITORA NOVOS RUMORES



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Leia trechos do livro e-book 
nos links a seguir:

http://balaacobaco.blogspot.com.br/2015/06/o-pt-antes-de-ser-o-pt-por-otavio.html

http://balaacobaco.blogspot.com.br/2015/06/do-ruggero-paulista-com-augusta-ao.html#.VZHIELyyimI

O PT, ANTES DE SER O PT - Por Otávio Martins



 
O PT, ANTES DE SER O PT



Por Otávio Martins


Meados do ano de 1979, o PT tentava engatinhar. O pessoal lá do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, assim como eu, acreditava no pelego Lula. Precisava de dinheiro para fundar o partido. 

Na mesma época, o Eduardo Gudin, com a ajuda da mídia, precisava recuperar o seu prestígio. Então, modestamente, fazia shows com o Riberti, Márcia. Introduzi o Paulinho Nogueira. Viajaram por 11 cidades por conta de um Projeto do SESC, pessoal lá de Interlagos, Otaviano, sua namorada, parece que Marisa e o Alen.




Num dos espetáculos, o qual serviria para angariar fundos para a fundação do novo partido, O PARTIDO DOS TRABALHADORES, muitos artistas, compositores e intérpretes da MPB estavam lá para colaborar. Paulinho da Viola, João Bosco (viriam do Rio, por conta própria); de São Paulo, Adoniran Barbosa, Eduardo Gudin, Riberti, Paulinho Nogueira, Ney Matogrosso, Odair Cabeça de Poeta e outros, que, agora, não lembro os nomes. A apresentação de todos esses artistas estava programada para se apresentarem no Teatro Tuca. 


Aquele coronel fascista e nazista, o Erasmo Dias, bloqueou com os “seus homens” todas as ruas que davam acesso ao teatro. Não houve lua, ninguém sambou. O Suplicy, oportunisticamente, fez um breve discurso, usando o microfone que estava no palco. A Censura, com um documentinho fajuto, apresentava como pretexto que não poderia ser realizado o espetáculo por causa da Joan Baez, pois esta não estaria em condições legais para participar do show. Nem eu sabia que ela estava no Teatro. Conversa pra boi dormir.


O Manuel, lá da padaria da 13 de Maio, como eu havia solicitado, fez uns 100 sanduíches de pão francês, mortadela e queijo, para o pessoal fazer um lanche. Quase todos (os sanduíches) voltaram, não houve show. Apenas a Joan Baez cantou, na platéia, Gracias à la vida, da Violeta Parra, chilena. Claro, a Platéia, nossa produtora, a Elô e, também, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, tiveram que arcar com o prejuízo.




Era a primeira produção da Platéia Produções Artísticas, uma firmeta do Gudin e minha. Espalhamos (sob a orientação da Eloísa Marques, que conhecia todo mundo na imprensa e os artistas cariocas) cartazes feitos por um desenhista, do qual, infelizmente, não me recordo o nome. Recebi um telefonema do empresário da Regina Duarte, dizendo que Platéia já existia, era dele e da Regina Duarte. Foi, até, sensato, aquele espetáculo poderia sair como produção da sua (dele) Platéia. Depois, viramos Realejo Produções Artísticas. Porém, sempre tem um porém, o Paulinho (Paulo Augusto Moreira Santiago) acho que agora, até já tomou conta do Museu do Bexiga, o qual iniciamos junto com o Armandinho, ali na Rua dos Ingleses, próximo ao Teatro Ruth Escobar, quase junto à escadaria que dá da Rua dos Ingleses à Praça 13 de Maio, na 13 de maio.




O Paulo Augusto Moreira Santiago, através da sua produtora e distribuidora de fotos (Sigla) e eu, através da Realejo, descontávamos algum dinheiro num pequeno banco, cuja gerente era, também, uma espécie de agiota. A documentação, notas fiscais (fajutas) e faturas, eram emitidas por nossas firmetas. O Paulo Augusto Moreira Santiago, firmou um contrato, parece, com uma produtora e distribuidora francesa, a Gamma. A partir daí, passei a ser inconveniente, tanto para a Realejo quanto para a tal de Gamma. No final das contas, somente o Riberti foi, para que se diga a verdade, honesto, ao dizer, no portão da Realejo (sala que era alugada pelo pai do sócio do Paulo Augusto Moreira Santiago): “Ô, Gudin, você acha que com aquela merreca que vocês tinham o Otávio iria fazer tudo isso, lançamento do seu disco, impressão, prensagem, início de divulgação fora de São Paulo e outras coisinhas mais?”. Isso pra dizer o mínimo. Tem outras histórias daí desse tempo e desses lugares.



O PT virou o que virou e o Gudin virou vendedor de cachaça à granel. Acho que ainda continua ligado aos irmãos Altman (bons de negócio). Esses, também, boas histórias, desde o boteco do Clube do Choro, lá em Pinheiros. Dizem que o Gudin comprou o bar do Alemão. Nunca fui lá conferir, mas, já sei, deve ser igual, pero no és lo mismo, como diria o cubano Silvio Rodriguez.



O pessoal lá do SESC de Interlagos, principalmente o Otaviano e o Alen, convidaram o Gudin para participar do Festival de Verão do Guarujá, 1980. O Gudin não aceitou e me indicou para assumir em seu lugar. Durei só três meses. Dancei. Fui dizer o óbvio, Maluf era ladrão.

*Trecho do livro e-book "Algumas Lembranças" de Otávio Martins Amaral - Editora Novos Rumores
*Escreva para:  contatonovosrumores@gmail.com
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domingo, 28 de junho de 2015

DO RUGGERO, PAULISTA COM AUGUSTA, AO GLAUBER ROCHA, NA BOCA DO LIXO - OTÁVIO MARTINS


             


DO RUGGERO, PAULISTA COM AUGUSTA,     
AO GLAUBER ROCHA, NA BOCA DO LIXO.
                                   
ALGUMAS LEMBRANÇAS

                                                                               Otávio Martins

Glauber Rocha já detectava o PELEGO, no seu “TERRA EM TRANSE”. Lula surgiria, somente, pra valer, com a fundação do PT, em 1980, no meu bairro, o Bexiga, centro de São Paulo, próximo à minha casa. Eu morava no Jardim Francisco Marcos. A sede do PT ficava na Travessa Brigadeiro Luiz Antonio, parece. Eu morava no Jardim Francisco Marcos, que começava e terminava na Rua da Abolição, onde ficava o portão dos fundos do Teatro Brasileiro de Comédia, na Major Diogo (a gente dizia a Rua de cima).


Center 3 –Paulista c/Augusta – Ruggero’s Bar – Na Galeria Center 3, ao lado do Restaurante do Antonio, “Queijo e vinho”, amigo do Ruggero, mais adiante, um supermercado, acho que era um Pão de Açúcar – do outro lado, quem saía para a Avenida Paulista, antes de atingir a escadaria, o restaurante do chinês. O LP do Rui Guerra e músicas do Chico Buarque de Holanda, “Calabar”. Teria a peça, também, Acho que não vingou. Não deu tempo nem de comprar o disco pra mim (tempo e dinheiro).

Ruggero Fanelli, italiano (dos bons) havia fugido do regime do Mussolini, durante a segunda guerra mundial, trauma antigo, montou o Ruggero’s Bar, onde eu trabalhava de caixa – no almoço - e de seu ajudante, pelas madrugas do bar. Preparávamos alguma comida para o dia seguinte, o pessoal da CESP, do prédio ao lado, pela Paulista, vinha tudo de uma só vez, loucos de fome. As panquecas, ótimas, são desse tempo. O nosso trauma, contemporâneo. Instalado com o regime militar, com o golpe de 1964. Desde o primeiro, Castelo Branco, até o último João Figueiredo (ditador cavalar), todos, sem exceção, uns verdadeiros gorilas. Claro, o pior, o meu conterrâneo, sou de Bagé - RS – Emílio Garrastazu Médici, El Carnicero – que mandou bala, mesmo, “mas o Chico cantou a pedra: Um dia ele vai embora, Maninha, pra nunca mais voltar...” Dito e feito, Parece, morreu lá pelo Rio de Janeiro. Um verdadeiro troglodita, qualidade rasteira de ser “humano”, melhor dizendo, da pior qualidade. Quem não concordar, levante o dedo.

Levei o meu amigo, Toninho Ramos para acompanhar a cantora Flora Vidal, minha amiga íntima, depois o Toninho Ramos foi, acompanhando, com o seu violão de sete cordas, o Martinho da Vila, lá pela Europa, chegou a Paris, ficou. Tomara que não volte mais. 1974. No seu lugar, ficou o seu irmão mais novo, o Luizinho, que, também era tecladista. O Paulinho, violão e percussão se mandou pro Canadá. Não soube mais dele.
Teatro TAIB – Velho Ateu, com o MPB4 – peça do Millôr Fernandes... Musical, parece que chamava “Bons tempos, hein?”. QUATRO PERSONAGENS, MPB-4 E UM BONECO VESTIDO DE MILICO. DAVA A IMPRESSÃO QUE ERAM CINCO, NO ELENCO. FUI COM O RIBERTI, LÁ NO BOM RETIRO. NEM SEI SE AINDA
EXISTE O TEATRO. 1978, parece.

GOTA D’ÁGUA”, no Teatro Aquários, Medéia de Eurípedes, vista pelos autores Francisco Buarque de Holanda e Paulo Pontes. Idealizada e iniciada por Oduvaldo Viana Filho. Era mais ou menos 1975, num Teatro na Rui Barbosa, no Bexiga. Milani era o Jasão, a Bibi, a Medeia e o Renato Consorte, o Creonte. O Martinez e o Reis diziam, sempre, que eu tivesse cuidado na hora do clic, ainda mais sem flash, não tremer. O problema não era a máquina, era o elenco. Depois, firmei, mas, no começo, tremi. Graciano Dantas, namorado da Elô, era o editor de reportagens, mandou eu fotografar a peça para o Correio do Povo de Porto Alegre. A sucursal ficava na Praça da República, num predinho antigo. Quem me conseguia os frilas, era a Elô, secretária do Audálio Dantas, no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, ali na Rego Freitas, 550, logo que descia da Igreja da Consolação. Apesar dos dois serem Dantas, não eram parentes.

Do Correio do Povo – ainda era aquele jornalão em preto e branco – acabávamos os últimos dias da semana no Bar do Batista, garçom que nos atendia, devidamente paramentado, ali na Rua Antonio Machado, antes de chegar a Galeria Metrópole. Entre nós e a Galeria, tinha um bom restaurante, ficávamos só com o cheiro das carnes na chapa.

Em compensação a freguesia dele não comeu e deixou de provar as delícias do Batista: bolinho de bacalhau e bolinho de batata. Tinha também a dona Odete, tia do Mário Covas, que morava no Copan; só bebia conhaque. Até eu já tinha morado no Copan, 29º andar – no meu tempo chamavam de Trepan. Fazia jus. O manda-chuva, mesmo, lá no Correio, era o Anísio Barreto (parceiro do Riberti), padrinho de casamento de um Caldas Júnior, em Porto Alegre. Viajou para o casamento e nunca mais o vi, talvez nunca mais tivesse voltado de Porto Alegre. O Graciano, ainda o encontrei lá em Vitória, capital do Espírito Santo, acho que em 2001, nos meus tempos de rábula, num escritório de advocacia, do meu primo, Zé, em Sampa.



JANAÍNA – FILHA DE LEILA DINIZ, TRISTE – NO CORREDOR MEIO ESCURO, NO FUNDO DO APARTAMENTO DO RUY GUERRA – EU NUNCA A TINHA VISTO, MAS, JÁ CONHECIA AQUELE OLHAR. PERDER UMA LEILA DINIZ, TÃO JOVEM... AINDA BEM QUE FICOU COM O PAI, O RUY GUERRA.

O RUY GUERRA E O GUDIN, SENTADOS, MEXENDO NO GRAVADOR. UMA FITA COM A MELODIA PARA O RUY COLOCAR A LETRA EM “OLHOS FRIOS”. NO RIO DE JANEIRO, em 1979. DEPOIS, FOMOS PARA O HOTEL, NA MARIA QUITÉRIA, ENCONTREI COM O BENITO DE DI PAULA E O LUIZ CARLOS.



OS DOIS, RUY GUERRA (Os fuzis) E GLAUBER ROCHA (Um monte) FORAM CINEASTAS ATIVOS e MUITO IMPORTANTES DO CINEMA NOVO, QUASE TODO PRODUZIDO ALI PELA BOCA DO LIXO, ONDE EU JÁ HAVIA MORADO, RUA AURORA. POR ISSO ME LEMBREI DOS DOIS, LÁ NO CENTER 3. NO EXATO MOMENTO EM QUE OS MILICOS VIERAM, NA MÃO GRANDE, PEGAR OS DISCOS.

NO LP “CORAÇÃO MARGINAL”, DE 1979, PELA GRAVADORA CONTINENTAL, O MESMO QUE TINHA “MARIA FERNANDA DE SÁ”, COM O PAULO CESAR PINHEIRO. FIZ UMA FOTO, EM BRANCO E PRETO, DO GUDIN. O PRODUTOR, OU DIRETOR, SEI LÁ, ANTONIO CARLOS CARVALHO, PREFERIU A OUTRA, A CORES. NEM SEI SE TEM CRÉDITO AO FOTÓGRAFO DA FOTO INTERNA. FIZ DE PRIMA, NO APARTAMENTO DELE, EM PINHEIROS, NA CÔNEGO EUGÊNIO LEITE. UMA SÓ CHAPA.



ESTÚDIO DO MARTINEZ, Av. Augusta, 1118 e 1124 (uma galeria), sobreloja, onde moravam a Irene Ravache e o Edson Paes de Mello, editor

do Caderno Divirta-se, alguns chamavam o roteiro de frescura, do Estadão. Muitas vezes, 1979, por aí, talvez por ter-me visto por ali, colocava, com fotos e tudo, os shows que eu produzia com o Gudin e Riberti. Por vezes, com a Márcia, também, além do Paulinho Nogueira. Até apresentações em Faculdades. Saudades dos dois, da Irene e do Edson. Foi no Estúdio do Martinez e do Reis que eu trabalhei e aprendi com esses dois ótimos fotógrafos, tudo o que sei de fotografia. Isso foi antes de ir trabalhar no Bar do Ruggero. Durante o curso de fotografia, eu trabalhava na Rua Gravataí, numa sucursal de uma fábrica de enceradeiras – LUSTRENE - travessa da Praça Roosevelt. Fazia as apostilas do curso, - lá tinha um mimeógrafo - em troca da mensalidade. A fábrica de enceradeiras ficava no Rio de Janeiro, o nosso manda-chuva se chamava Vinícius.

Um dia, havia passado pela Praça Roosevelt, numa agência do Correio, num corredor, comprido, uma exposição de fotos, branco e preto. Perguntei pro Martinez e pro Reis se eles conheciam aquele fotógrafo: Sebastião Salgado. Depois ele ficaria conhecido pelo mundo inteiro. Grande Sebastião Salgado.










VELHO ATEU


http://www.kboing.com.br/beth-carvalho/1-49708/

 


Compositor: Eduardo Gudin E Roberto Riberti


Um Velho ateu
Um bêbado cantor poeta
Na madrugada
Cantava essa canção-seresta
Se eu fosse Deus
 
A vida bem que melhorava
Se eu fosse Deus
Daria aos que não tem nada.
E toda janela fechava
 
Pros versos que aquele poeta cantava
Talvez por medo das palavras
De um velho de mãos desarmadas.
Se eu fosse Deus...


*Trecho do livro e-book "Algumas Lembranças" de Otávio Martins Amaral - Editora Novos Rumores 

*Escreva para:  contatonovosrumores@gmail.com
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